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Pinheiro Machado x Cacimbinhas



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Prazer, Pinheiro Machado.Mas pode chamar de Cacimbinhas

TEXTO
Rosane Tremea
rosane.tremea@zerohora.com.br

A história do município do sul do Estado que foi obrigado a trocar de nome por causa do assassinato de um senador

o meio da Praça Angelino Goulart, espremida entre as ruas Dutra de Andrade e Nico de Oliveira, bem em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Luz, interpelamos uma dúzia entre os mais de 12 mil moradores da cidade e fazemos a pergunta à queima-roupa:

– Cacimbinhas ou Pinheiro Machado?

O resultado da nada científica enquete é variado: uns respondem a primeira opção, outros a segunda, alguns ficam em cima do muro.

Quando a conversa se encomprida, o que chama atenção é que a lenda de Cacimbinhas, o primeiro nome desse município ao sul do Estado, é conhecida por todos. A história da denominação atual, Pinheiro Machado, apenas é descrita por duas estudantes que, por acaso, pesquisavam a vida do republicano estrangeiro ao lugar – o político José Gomes Pinheiro Machado nasceu em Cruz Alta, ainda adolescente lutou como um dos “voluntários da Pátria” na Guerra do Paraguai (1864-1870), combateu na Revolução Federalista (1893-1895) e permaneceu senador até sua morte num tempo em que a capital do Brasil era o Rio de Janeiro. Consta que nunca teria posto os pés naquela área do pampa gaúcho. E, provavelmente, seria só mais um nome na História também para os cacimbinhenses (depois pinheirenses) se um morador da cidade não tivesse sido o responsável por sua morte, em 8 de setembro de 1915.

Francisco Manço de Paiva Coimbra, o filho do padeiro português Francisco, golpeou o senador com um punhal no Hotel dos Estrangeiros, no centro do Rio, encerrando a trajetória de um dos mais notáveis personagens da Primeira República. A motivação do assassinato nunca seria esclarecida – se ação de um lobo solitário ou crime encomendado.

Manço era natural de Jaguarão, vivera pouco tempo com a família em Cacimbinhas, mas o ato que abalou a política nacional da época teve o efeito de uma bomba sobre os cacimbinhenses. O gesto tresloucado justificou a decisão do intendente provisório, Ney de Lima Costa, de mudar o nome da cidade, por decreto, em 30 de outubro de 1915:

“Considerando que o nome de ‘Cacimbinhas’, além de irrisório, nada significa na tradição histórica deste município (…) Resolve: Artigo 1º – Fica mudado o nome do município de Cacimbinhas para o de Pinheiro Machado (…)”.

Pronto, assim Cacimbinhas virou Pinheiro Machado.

A HISTÓRIA DE UM MILAGRE

Mas como Cacimbinhas, a 348 quilômetros de Porto Alegre, tinha virado Cacimbinhas? A cidade que, nos primeiros anos do século 20, havia se transformado em sinônimo de lonjura nas palavras do também político Joaquim Francisco de Assis Brasil toda vez que se dirigia ao seu castelo na propriedade de Pedras Altas, então parte das terras de Cacimbinhas e mais de 30 quilômetros distante da sede atual.

Foi assim: naquelas coxilhas que se estendem até a fronteira do Uruguai, havia muitos banhados mas pouca água e, na trilha dos carreteiros e tropeiros que por ali passavam no século 19, eram abertas cacimbas (ou poços) para aplacar a sede de pessoas e animais.

Aqui entra na história o Dutra de Andrade, aquele que emprestou o nome à rua do início deste texto. Ao fazendeiro José Dutra de Andrade sobravam bens materiais, mas faltava a visão, perdida por doença ou velhice, não se sabe ao certo. Devoto de Nossa Senhora da Luz, prometeu erguer uma capela à santa caso voltasse a enxergar. Um dia, ao lavar-se em uma cacimba, o milagre teria acontecido e ele tornou a ver.

Com o vizinho Antônio (Nico) de Oliveira, que dá nome à outra rua citada, doou as terras e construiu o templo onde hoje está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Luz, no ponto mais alto do lugar.

Nascia Nossa Senhora da Luz das Cacimbinhas, mais tarde simplesmente Cacimbinhas.

É essa história que o funcionário público federal e escritor diletante Miguel Régio, 57 anos – só nascido em Rio Grande, mas criado em Pinheiro Machado –, transformou em A Lenda das Cacimbinhas, um volume impresso em 2006 com quase 500 páginas.

É Miguel Régio quem nos leva à Cacimba do Camacho. Antes mesmo de chegar, já vai nos alertando, com medo de qualquer imprecisão sobre a ideia de que aquele seja o local do milagre da lenda:

– Não foi aqui, ninguém sabe direito onde foi.

A cacimba da Praça Angelino Goulart também merece alerta: é só uma réplica, não se sabe ao certo de que ano. E a cacimba do milagre não é aquela à direita da igreja matriz. Pode ser que fosse uma à esquerda de quem entra na cidade, vindo de Porto Alegre, aponta Luis Carlos Dutra, 57 anos, o Carlitos Dutra, tataraneto do homem beneficiado com o milagre e que se dedica a publicar, com a ajuda de Miguel Régio, a terceira edição da Monografia Histórica do Município de Pinheiro Machado (ex-Cacimbinhas), escrita pelo pai, Odil Peraça Dutra, historiador autodidata, contador da prefeitura por 33 anos, sempre debruçado sobre as coisas locais.

Odil, falecido em 2003, também fez história no município como vereador. Em meados dos anos 1950, era um dos integrantes da Sociedade Amigos de Cacimbinhas, o último grupo organizado a tentar recuperar a denominação antiga. Na família de Carlitos, a mudança de Cacimbinhas para Pinheiro Machado nunca seria aceita. Os tios que moravam em Pelotas, os primos, os avós, todos ignoravam Pinheiro Machado. Era Cacimbinhas. E pronto.

DE GERAÇÃO A GERAÇÃO

Mas voltando à cacimba, se não é a do Camacho aquela do milagre, por que todos tiram fotos ali e por que ali, a caminho do Parque Charrua, cenário da Feovelha (feira reconhecida no setor agropecuário do Estado), ergueu-se, sobre pedras, uma grutinha com Nossa Senhora da Luz?

É outra coisa que não se explica totalmente. Talvez para não explorar a fé do povo, me dizem, e não correr o risco de contaminar com água não tratada doentes dos olhos que, desenganados pela medicina, buscassem ali cura para seus males.

Ainda assim, foi numa das cacimbas que Maria Cristina Souza, 48 anos, auxiliar de serviços gerais, contou ter lavado os olhos dos dois filhos, hoje com 21 e 23 anos, muito tempo atrás. Curar não curou, mas o astigmatismo e a miopia que avançavam e prejudicavam a vista de ambos teriam se estabilizado.

A história do milagre de Dutra de Andrade, a mesma que Maria Cristina conta, passou de geração a geração. Ficou. A da mudança do nome, que quase deu vez a uma revolução, é menos conhecida. Falta estudar mais sobre ela nas nove escolas municipais, reconhece o vice-prefeito, e professor, Jackson Fagundes Cabral (PSDB), 45 anos, que justifica assim o fato de aparecer o nome Cacimbinhas no lugar de Pinheiro Machado na bandeira e no hino, símbolos oficiais:

– É uma cidade com nome e sobrenome.

Por pelo menos duas gerações ninguém se conformou tão facilmente. Nas semanas que se sucederam à troca do nome, o intendente Ney de Lima Costa, que já não era muito bem visto, quase foi escorraçado. Um cerco chegou a ser formado por cerca de 70 homens armados no clube em que Ney se reunia com apoiadores, menos de dois meses após o decreto. Numa solução negociada com a presidência da Província, a mesma que o enviara para lá, sairia da cidade poucos dias antes de o ano se encerrar. Cacimbinhas virar Pinheiro Machado transformou o intendente em persona, definitivamente, non grata.

NATIVOS E FORASTEIROS

Para o Palácio do Governo, o nome estava decidido. Para muitos moradores, não. À frente da inconformidade que virou bandeira pelo menos até os anos 1950, estavam a família Noguez, dona do jornal Faraute – que por anos seguiu com Cacimbinhas em seu cabeçalho –, e muitas outras que tentaram retomar a antiga denominação, conta o jornalista Luiz Antônio “Nikão” Duarte, 63 anos, hoje professor da Unisinos e assessor de imprensa do Banrisul.

Autor de A Guerra de Cacimbinhas, Nikão pesquisou o tema por mais de 10 anos, primeiro para a dissertação de mestrado e a tese de doutorado, sobre as relações entre imprensa e poder, e, depois, para o livro, lançado em 2015, ano do centenário da troca do nome (e da revolta dos moradores), misturando pesquisa histórica e ficção – ou, como ele gosta de ressaltar, em forma de uma grande reportagem. Bisneto, neto e filho de cacimbinhenses, Nikão passou parte da infância e da adolescência na cidade e recorda do avô materno, Juca Farias, narrando a história desse embate, misturada aos contos de assombração e às lendas da campanha nas frias noites de inverno. O avô paterno, Nico Duarte, também era um “cacimbinhense convicto”, mas romanceava menos o fato.

E até quem não tinha raízes ali não entendia bem o porquê da “punição” ou “agressão”, que é como Nikão e Miguel Régio se referem ao decreto. Caso do poeta autodidata José de Jesus Lopes, 90 anos, nascido em Piratini e morador de Pinheiro Machado, que, ao escrever sobre esta última, sempre escorrega para Cacimbinhas nos poemas:

“Um dia fostes Cacimbinhas
Parada dos carreteiros
Transportadores de cargas
Pelo pago brasileiro
Também fostes no passado
O corredor dos tropeiros”.

E caso do historiador autodidata Sejanes Dornelles, autor da letra do “hino oficial nativista” de Pinheiro Machado (leia na página 8), que nunca morou por lá, mas estudou a origem dos nomes dos municípios e se indignava com a alteração forçada, lembra o filho Claudemir “Kininho” Dornelles, 53 anos. Kininho, habitué de festivais nativistas, morador de Santa Vitória do Palmar, musicou os versos confeccionados pelo pai manifestando a contrariedade e venceu no voto popular, em 1993, a Comparsa da Canção, festival nativista de Pinheiro Machado que já não existe. O título da música? Milonga pra Cacimbinhas.

– Entrei no espírito da poesia e da indignação do meu pai. Era um poema enorme, resumi e fiz um refrão. Quando cantei na Comparsa, na versão original e nos 25 anos do festival, em 2012, o pessoal ficou enlouquecido – descreve Kininho.

– Todos levantavam, todos cantavam, foi uma apoteose – completa Darlene Souza Farias, ex-vereadora, nascida em Piratini, mas com título de cidadã emérita pinheirense.

O antigo nome recusa-se a ser apagado de Pinheiro Machado: na sigla da Sociedade União Cacimbinhense…

Quem sugeriu que a música fosse elevada pela Câmara à categoria de hino foi Darlene. Ela também tomou a iniciativa, como antiga organizadora do festival, de fazer a comemoração dos 25 anos da Comparsa e entregar a Kininho, encadernado, o projeto que oficializou Milonga pra Cacimbinhas como símbolo municipal. Darlene não sabe a letra de cor, mas acha o hino lindo, embora prefira Pinheiro Machado a Cacimbinhas.

Não é que o nome seja um problema. Há outras coisas com que se preocupar: a cidade sofre dos mesmos males de outras da região que enfrentaram o empobrecimento com a decadência da agropecuária e ainda tenta encontrar uma vocação econômica, falta emprego, o patrimônio histórico carece de proteção… Nem existe qualquer movimento na cidade para um plebiscito ou um clamor popular para voltar ao que era antigamente.

Talvez a última movimentação tenha sido uma enquete informal, de autoria de Miguel Régio, no final dos anos 1990: ele colocou em pontos estratégicos um questionário para ser respondido pelos moradores sobre a preferência (Pinheiro Machado ou Cacimbinhas?). Foi num rompante e não resultou em outra coisa que não a disposição de ele se dedicar ao livro lançado em 2006. Uns 400 responderam. Deu empate técnico.

– Se fosse feita uma consulta hoje, acho que seria uma disputa renhida. Os mais jovens talvez fossem contra. Outros acham que custaria muito caro – calcula Miguel – Certo é que, de brincadeira, as pessoas aqui dizem que são de Cacimbinhas.

A Câmara Municipal não registra nenhum pedido recente a respeito. Os líderes do Executivo, muitas vezes recebidos na Assembleia ou no Piratini, e até mesmo em Brasília, como “o pessoal de Cacimbinhas”, nem pensam no assunto.

– Uma ideia dessas não partiria do poder público. Deixaríamos as lideranças à vontade, caso alguém pensasse nisso. Cacimbinhas ficou na tradição, no orgulho, mas não é nada que ofusque ser pinheirense – pondera o vice-prefeito.

Haveria implicações legais, na identificação de pessoas, veículos, propriedades, na papelada. Isso tudo custa dinheiro, que falta para outras coisas. Se alguém quisesse retomar o antigo nome, também seria uma trabalheira. Precisaria convencer um deputado na Assembleia de que é um assunto importante, para que fosse proposto um projeto de lei alterando a lei que criou o município, ou, então, um projeto de iniciativa popular, mobilizando muita gente, explica Filipe Etges, coordenador da Comissão de Assuntos Municipais da Assembleia.

Ninguém propõe a troca agora e nem era essa a intenção da pergunta que fizemos na praça. Só queríamos recontar essa história, da cidade que foi obrigada a trocar de nome. De qualquer forma, acredita Nikão Duarte – que pessoalmente é mais Cacimbinhas do que Pinheiro Machado e hoje mora em Porto Alegre –, Cacimbinhas e Pinheiro Machado ainda precisam se reconciliar:

– Não há nada que lembre Pinheiro Machado por lá, um busto, um monumento, uma rua. Há um afastamento incompreensível entre Cacimbinhas e Pinheiro Machado, e mesmo o personagem histórico é negligenciado. Ele também merece respeito.

Se, por acaso, um dia, os pinheirenses quisessem voltar a ser cacimbinhenses por direito, teriam de brigar com outra Cacimbinhas: um município de Alagoas, batizado pelo mesmo motivo da cidade gaúcha, a presença de cacimbas para aplacar a sede de homens e animais. E, nesse caso, ainda assim seria necessário um sobrenome. Talvez, Cacimbinhas do Sul.

Matéria na íntegra com vídeo e fotos somente para assinantes em:
http://especiais.zh.clicrbs.com.br/especiais/zh-singular/pinheiromachado/